Documento Fundacional do Santuário de Babalon e da OETO
"Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei."
O Sanctuarium Babalonis – que neste texto vamos chamar de Santuário de Babalon – e a Ordo et Ecclesia ad Thelema Ominis – que aqui chamaremos simplesmente de OETO – nascem da mesma egrégora, ligada à Tradição Gnóstica e Thelêmica, à Lei de Thelema e ao Código Iluminista Livre. Esta Carta é um texto de base, um mapa vivo que diz quem somos, como funcionamos e quais princípios sustentam nossa convivência e nossas práticas espirituais.
O centro de tudo é a Lei de Thelema, que nos chama a descobrir e realizar a Vontade Verdadeira em amor sob vontade. Junto com isso, assumimos o Código Iluminista Livre, que defende a liberdade de consciência, de expressão e de associação, sempre com responsabilidade, honestidade e respeito à autonomia de cada pessoa. Queremos que essa liberdade seja um espaço para florescer, não uma desculpa para abuso ou descuido.
Nossa comunidade é diversa por natureza. Acolhemos pessoas de qualquer identidade ou expressão de gênero, orientação afetivo‑sexual, raça, etnia, classe social, condição física ou neurodivergência, crença, posição política democrática, formato de família e história de vida. Ninguém é impedido de participar, servir ou assumir funções por causa de quem é, de como se identifica ou de com quem se relaciona de forma consensual. Vemos essa diversidade como uma riqueza da egrégora, algo que queremos cuidar e cultivar.
O Santuário de Babalon é a nossa Ecclesia. Ele guarda e manifesta a tradição gnóstico‑thelêmica por meio de ritos, sacramentos, liturgias e caminhos devocionais, servindo como casa espiritual para quem busca a Gnose e a Lei de Thelema em chave eclesial. O Santuário existe para celebrar ritos, batismos, confirmações e outros sacramentos da Tradição Gnóstica e Thelêmica, para oferecer um caminho aberto de espiritualidade a quem quer se aproximar sem entrar em trabalhos iniciáticos formais, e para ser um espaço de acolhimento, escuta, cura e partilha.
Qualquer pessoa pode participar dos ritos do Santuário. Batismos, confirmações e outros sacramentos são gratuitos, feitos com preparação e cuidado. Para quem mora longe de um corpo local, o Santuário mantém o Círculo das Crianças da Terra, que permite participar à distância por meio do Chamado de Babalon e de encontros online. Isso não substitui os sacramentos presenciais, mas mantém viva a conexão com a egrégora até que surjam oportunidades de encontro físico ou até que um grupo se forme naquela região.
A Ordo et Ecclesia ad Thelema Ominis (OETO) nasce de dentro do Santuário de Babalon. Ela foi criada pelo Santuário para dar forma ao eixo de estudo sistemático, formação doutrinária e iniciação mágica, com características próprias que complementam, e não substituem, a vida sacramental do Santuário.
A OETO organiza a Classe Fundamental e demais módulos de formação, oferecendo um caminho contínuo de estudo em espiritualidade, ética, magia, misticismo e vida interior, além de trilhas iniciáticas específicas. Esses estudos e iniciações exigem materiais, preparação, acompanhamento próximo e uma estrutura de longo prazo; por isso, diferentemente do Santuário – cujos ritos são gratuitos –, a OETO funciona com contribuição mensal de seus membros, destinada a sustentar o trabalho pedagógico e iniciático, com formação aprofundada e continuada.
A participação na Classe Fundamental da OETO é aberta a qualquer pessoa que aceite a Carta Magna e demais regulamentos internos específicos. As iniciações presenciais da OETO nunca acontecem isoladamente: elas são sempre celebradas em um Oásis do Santuário de Babalon, integradas ao corpo e à vida sacramental da Ecclesia. Assim, mesmo quando a OETO trabalha com graus, ritos e símbolos próprios, o lugar onde esses ritos tocam a matéria – altar, tempo sagrado, comunidade – é sempre o corpo do Santuário.
O Santuário de Babalon, por ser um espaço sacramental de acesso aberto, é mantido por meio de doações voluntárias. A administração desses recursos conta com transparência e prestação de contas à comunidade, demonstrando a aplicação dos valores na realização dos ritos, no acolhimento e no suporte aos Oásis locais.
A OETO é sustentada pelas contribuições mensais de seus membros. Essa arrecadação é gerida de forma institucional pela Coordenação da OETO e pela Chancelaria, sendo destinada diretamente à manutenção da estrutura pedagógica, administrativa e iniciática da Ordem, o que garante os materiais e a organização necessários para o caminho contínuo de formação.
Dentro do Santuário falamos em ministérios, entendidos como formas de serviço espiritual. Há ministérios diaconais, voltados para ajudar na liturgia, no acolhimento, na organização e no suporte à comunidade; ministérios sacerdotais, que assumem a celebração dos sacramentos principais, o cuidado com os Oásis e o acompanhamento espiritual de grupos; e ministérios episcopais, que guardam a tradição, ordenam novos ministros, acompanham Oásis e Núcleos e cuidam da unidade da egrégora. Usamos linguagem neutra: falamos em ministre diaconal, ministre sacerdotal ou ministre episcopal, e qualquer pessoa vocacionada pode ser chamada a esses serviços.
Todos os ministres episcopais formam juntos um Conselho Episcopal, que é o círculo onde são cuidadas as questões mais amplas da tradição, da disciplina sacramental e da unidade da egrégora. É esse Conselho que, em comunhão, discerne caminhos, acolhe dúvidas, reconhece ordenações e toma as decisões de fundo quando algo afeta o conjunto da comunidade.
Entre esses ministres episcopais, uma pessoa é escolhida para exercer um serviço especial de liderança: chamamos essa função de Chancelaria Episcopal. Quem assume a Chancelaria Episcopal é um’e ministre episcopal do Santuário de Babalon, que anima o Conselho, convoca e facilita suas reuniões, representa a Ecclesia em nível mais amplo e cuida da comunhão oficial entre o Santuário e as demais estruturas ligadas a ele, entre elas a OETO.
A Chancelaria Episcopal, em diálogo com o Conselho Episcopal, também indica e acompanha a Coordenação da OETO: a pessoa responsável por articular o dia a dia da Ordem de estudo e iniciação, organizar currículos e facilitar o trabalho pedagógico. Essa coordenação pode ser exercida pelo próprio chanceler ou por outra pessoa por ele’a indicada, e pode ser revista, substituída ou redistribuída sempre que o bem da egrégora assim o exigir.
Nossa maneira de entender liderança espiritual é muito influenciada pelo Código Iluminista Livre. Em vez de pensar em “chefes”, falamos em facilitadores. Chamamos de facilitador, facilitadora ou facilitatore toda pessoa que conduz ritos, grupos, estudos ou processos dentro da egrégora, com autorização para isso, tenha ela ordenação ou não.
Ministres diaconais, sacerdotais e episcopais são, antes de qualquer coisa, facilitadores: não estão ali para mandar na vida de ninguém, mas para criar condições para que cada pessoa se encontre com a própria Vontade Verdadeira, com segurança e discernimento. Coordenações em todos os níveis – Oásis, Núcleos, OETO, funções específicas – são tipos de facilitação: o foco é servir, ouvir e assumir responsabilidade junto com a comunidade, não buscar status.
Quando falamos das comunidades espalhadas pelo mundo, usamos a imagem do deserto e da fonte. Chamamos de Núcleo em Formação um grupo que está nascendo, sendo acompanhado de perto, coordenado por alguém com ministério diaconal e formação em andamento. Chamamos de Oásis do Santuário de Babalon um corpo local oficialmente reconhecido, com celebrações regulares, estrutura básica e responsabilidade assumida por alguém que detenha o ministério sacerdotal. Essa diferença ajuda a fazer com que os grupos cresçam com cuidado, antes de receberem reconhecimento completo.
Um Oásis não aparece do nada por decisão administrativa. Em geral, tudo começa com alguém que participa com frequência dos ritos do Santuário, nos encontros online e, quando dá, em encontros presenciais, e que mantém uma prática devocional firme, como o Chamado de Babalon. Depois de um tempo vivendo isso, essa pessoa entra na Classe Fundamental e em outros módulos de formação na OETO, se aprofunda na tradição, na liturgia, na ética, na organização de grupos e no cuidado com pessoas.
Quando fica claro que há conhecimento, maturidade e compromisso, essa pessoa pode ser reconhecida como ministre diaconal e começar a coordenar um Núcleo em Formação na sua região. Esse Núcleo se reúne para estudar, praticar rituais adequados, partilhar experiências e construir comunidade, sempre com supervisão de um’e ministre mais experiente. Se, com o tempo, esse Núcleo mostra estabilidade, cuidado ético, fidelidade aos princípios desta Carta e capacidade de se manter, a pessoa responsável pode ser chamada ao ministério sacerdotal. Com essa ordenação e com o reconhecimento do Conselho Episcopal, o Núcleo passa a ser oficialmente um Oásis do Santuário de Babalon naquela região. Em outras palavras, abrir um Oásis é algo que nasce de um caminho de serviço e confiança construída, e não de um simples pedido ou de número de seguidores.
A coordenação disso tudo é distribuída. Cada Oásis tem uma Coordenação do Oásis, exercida por alguém com ministério sacerdotal, que facilita a vida daquela comunidade local. Cada Núcleo em Formação tem sua coordenação, em geral feita por um’e ministre diaconal, acompanhado’a por um’e ministre sacerdotal ou episcopal. Em nível mais amplo, o cuidado com o Santuário de Babalon e com a OETO é articulado pelo Conselho Episcopal e pela Chancelaria Episcopal, que podem, quando necessário, nomear pessoas para funções específicas de serviço (como acompanhar programas de estudo da OETO, apoiar Oásis em determinada região, cuidar de arquivos, finanças ou comunicação). Essas funções são delegações: existem enquanto fizerem sentido e podem ser revistas, redefinidas ou transferidas conforme as necessidades da egrégora.
Para que nossos espaços sejam realmente seguros e coerentes com aquilo que falamos, adotamos um Código de Conduta que vale para todas as pessoas, e que é ainda mais exigente com quem está em posição de liderança. Não aceitamos assédio, agressão física ou verbal, humilhação, discriminação, coerção ou qualquer forma de abuso — seja sexual, psicológico, espiritual ou de autoridade. O corpo, a história e os limites de cada pessoa precisam ser respeitados. Toques, convites e abordagens têm que ser consentidos, claros e livres de pressão.
Dentro desse cuidado, não permitimos ofensas pessoais nem mensagens de cunho erótico, preconceituoso, racista, machista, misógino, LGBTQPIAN+fóbico, xenófobo, capacitista, gordofóbico, antissemita, islamofóbico ou que ataquem qualquer grupo por sua identidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia, origem, crença ou posição política democrática. Isso vale para falas em rituais, em grupos de estudo, em chats e também em mensagens privadas ligadas à comunidade. Entra aqui, por exemplo, fazer piadas ou “memes” ridicularizando pessoas ou grupos, atacar alguém publicamente, mandar mensagens eróticas sem que a outra pessoa tenha deixado claro que quer isso, insistir em cantadas depois de um não e usar linguagem espiritual para dar cara de “ensinamento” a discursos de ódio ou exclusão.
Sabemos também que existe uma diferença de poder entre quem lidera e quem procura ajuda ou iniciação. Por isso, ministros e coordenadores se comprometem a não usar sua posição para buscar vantagens afetivas, sexuais, financeiras ou de qualquer outro tipo. É contra tudo o que defendemos condicionar atenção espiritual, iniciações ou participação em ritos a favores pessoais, assim como usar termos espirituais para manipular, pressionar ou controlar escolhas íntimas de alguém.
Relações afetivas podem surgir; o problema não é o afeto, e sim o uso da posição de liderança de forma irresponsável. Se um relacionamento afetivo ou sexual aparece entre alguém que está em liderança — coordenação de Núcleo, coordenação de Oásis, Coordenação da OETO, funções delegadas em nível mais amplo ou ministério — e uma pessoa que está sob seu cuidado direto, a chave é a transparência e o cuidado com a comunidade.
Nesse caso, a relação deve ser comunicada diretamente à Chancelaria Episcopal, e deve‑se buscar que a pessoa em liderança deixe de ser a principal referência espiritual ou ritual daquela pessoa ou daquele grupo. Muitas vezes isso significa deixar a coordenação do Núcleo, do Oásis ou uma função delegada, para não misturar funções e proteger todo mundo envolvido. Sempre que possível, quem estiver pensando em iniciar uma relação nessas condições é incentivado a conversar antes com integrantes do Conselho Episcopal.
Quando alguém quebra de forma grave esse Código de Conduta — especialmente em casos de assédio, agressão, abuso de poder ou desrespeito a limites corporais — podem acontecer medidas como suspensão temporária, afastamento definitivo de funções de liderança, saída da comunidade e também encaminhamento do caso às autoridades civis, se houver indícios de crime.
As denúncias podem ser levadas à Coordenação do Oásis, à coordenação do Núcleo, à Coordenação da OETO, a algum’e ministre episcopal ou diretamente à Chancelaria Episcopal e ao Conselho Episcopal, que têm o compromisso de ouvir com seriedade, proteger quem está vulnerável e agir de forma responsável.
Para garantir que a justiça e o cuidado andem juntos, toda denúncia formal de quebra do Código de Conduta passará por um processo de apuração imparcial. A pessoa denunciada terá garantido o direito à ampla defesa, à escuta e à resposta, assegurando que as decisões da egrégora não sejam arbitrárias, mas pautadas em fatos e no discernimento ético. Durante esse período de apuração, a liderança poderá aplicar medidas preventivas de afastamento temporário para preservar a segurança física e psicológica das partes envolvidas. A decisão final sobre sanções ou desligamentos será sempre tomada em colegiado pelo Conselho Episcopal.
Dentro dessa estrutura, fazemos também uma distinção importante entre atos oficiais da egrégora e atos pessoais de prática mágica ou devocional. Ritos como batismos, confirmações, ordenações, consagrações e outros sacramentos só são considerados atos oficiais do Santuário de Babalon e da OETO quando celebrados por ministros autorizados, seguindo os ritos reconhecidos pelo Conselho Episcopal e com o devido registro.
Outras consagrações, trabalhos mágicos, iniciações privadas ou experimentações pessoais são respeitadas como expressão da liberdade espiritual de cada um’e, mas não criam automaticamente graus, ministérios, direitos ou deveres dentro da comunidade. Quando for preciso discernir sobre algum ato limítrofe ou excepcional, é o Conselho Episcopal que escuta, avalia e decide como ele é ou não reconhecido no âmbito da egrégora.
A Chancelaria Episcopal pode ser assumida como um serviço de longo prazo, até mesmo vitalício, enquanto a pessoa tiver saúde, disposição e alinhamento com os princípios desta Carta. Isso não significa poder absoluto. O conjunto dos ministres episcopais, reunidos no Conselho Episcopal, pode limitar, revisar ou encerrar a atuação de quem ocupa essa função se houver sinais claros de violação grave do Código de Conduta ou dos princípios aqui descritos. Nenhuma função, por mais alta que pareça, vem antes do cuidado com as pessoas, da segurança da comunidade e do espírito do Código Iluminista Livre.
No fim, Santuário e OETO se reconhecem mutuamente em papéis diferentes. O Santuário de Babalon é a Ecclesia, guardiã da tradição gnóstico‑thelêmica, dos sacramentos e dos Oásis. A OETO é uma ordem de estudo e iniciação instituída pelo Santuário, responsável por organizar a Classe Fundamental, os módulos de formação e o caminho iniciático próprio, com a liberdade pedagógica necessária para cumprir essa função.
A OETO desenha seus currículos, regula suas iniciações internas e acompanha o desenvolvimento de seus membros, mas toda iniciação presencial da OETO é sempre celebrada ritual e sacramentalmente em um Oásis reconhecido do Santuário de Babalon, com autorização conjunta da Coordenação da OETO e da Chancelaria Episcopal, em comunhão com o Conselho Episcopal.
Assim, o Santuário de Babalon reconhece a OETO como seu caminho oficial de ensino e formação aprofundada, e a OETO reconhece o Santuário de Babalon como sua Igreja‑mãe, em cujo corpo se enraízam todos os sacramentos e iniciações presenciais. Graus iniciáticos na OETO não dão automaticamente ministérios no Santuário; da mesma forma, receber um ministério no Santuário não garante graus na OETO. A harmonia entre essas duas faces da egrégora se mantém pelo diálogo constante entre o Conselho Episcopal, a Chancelaria Episcopal, a Coordenação da OETO e as pessoas que, em cada momento, forem chamadas a cuidar de funções específicas de estudo, formação e vida comunitária.
Qualquer pessoa que participe do Santuário de Babalon ou da OETO pode, a qualquer momento, pedir sua desfiliação completa, deixando de ser considerada membro, sem necessidade de justificar esse pedido. Do mesmo modo, a liderança pode considerar desligada, para fins práticos, a pessoa que permanecer por longo período sem qualquer participação, contato ou contribuição, desde que isso não seja usado como punição velada, mas apenas como atualização de cadastro e de responsabilidades.
Os dados pessoais de membros e participantes são tratados com respeito à privacidade e em conformidade com a legislação em vigor sobre proteção de dados pessoais, em especial a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A pedido da pessoa, seus dados podem ser eliminados ou anonimizados, salvo quando a lei exigir sua conservação por determinado tempo (por exemplo, por motivos fiscais, contábeis ou de cumprimento de obrigações legais).
Esta Carta se resume a poucas linhas: liberdade com responsabilidade, iniciação com cuidado, poder entendido como serviço e amor sob vontade, guiado pelo Código Iluminista Livre.
Amor é a lei, amor sob Vontade.